“Inconstante. Depressiva. Desanimada. Chata. Irritante. Insuportável. Carente.” Assim, Liz Mendes Ferreira, uma jovem aspirante a jornalista, se descreveu durante seu primeiro depoimento. O que descobri nos próximos sete dias de observação e entrevistas, porém, foi uma personalidade além do que esses adjetivos poderiam caracterizar. Ao contrário da descrição, me deparei com uma garota sorridente, conversadeira, cheia de idéias na cabeça e com um adorável sotaque mineiro.
Nascida em Três Corações (MG), viveu nesta pequena cidade durante 12 de seus 20 anos. Quando seus pais, Maria Cláudia Mendes de Oliveira (48) e Jaime Naves Ferreira (61) se separaram, Liz se mudou com a mãe para Campo Grande (MS) e por lá ficou durante um ano. Logo depois veio Itapira (SP), onde fez suas maiores amizades. Três anos depois, porém, foi a vez de se mudar para Campinas (SP), onde passou um ano. Foi então, após toda essa trajetória, que veio parar em Brasília (DF), onde mora há três anos com a mãe e diz ter se “perdido”. “Eu sinto que não faço parte desse mundo, dessas pessoas, das mentalidades. Eu não consigo me encaixar aqui.”
“A Li é a pessoa complicada mais simples que eu conheço”, descreveu-a sua grande amiga Marina Ferreira (18), de Itapira (SP). A mesma opinião é compartilhada pela mãe da jovem: “Falar da Liz é, ao mesmo tempo, simples e complicado [...] Ela tem características marcantes, como o grande envolvimento em tudo que faz; é muito sociável, mas ao mesmo tempo adora se isolar; é inteligente, bonita, guerreira, tem um grande interesse em aprender.” Sua ídola, a jornalista Gabriela Guerreiro (32), também sua ex-professora na faculdade onde cursa o segundo semestre de Jornalismo, a descreve como uma aluna muito especial e dedicada. “(A Liz) Precisa acreditar mais no seu próprio talento, sem deixar que a insegurança e os medos atrapalhem os seus sonhos”, completou a jornalista.
Liz é uma garota, aparentemente, comum para sua idade. Veste calça jeans, camiseta e tênis. Tem os cabelos curtos e usa óculos pra corrigir os 5,5 graus de miopia nos olhos. Entre uma conversa e outra, descubro que ela tem o gosto musical um tanto eclético e seus filmes preferidos começam em comédias românticas e terminam em dramas alternativos. Os livros favoritos variam da famosa coleção adolescente “Gossip Girl” até a complexa literatura de Clarice Lispector, uma de suas autoras preferidas. Conversamos rapidamente sobre sua infância, e logo percebo que não é um assunto agradável para minha perfilada. A cada dia, passo a conhecer uma Liz diferente. Da garota irritada com provas da faculdade àquela animada quando recebe mensagens no celular.
Depois de uma hora de conversa, fazemos uma pequena interrupção para que ela possa tomar seus remédios: Daforin e Plenty. Um inibidor antidepressivo e outro para diminuir a ansiedade. Pergunto o motivo para a medicação, ela apenas sorri.
Ao final da última entrevista, percebo que Liz está empolgada e feliz com alguma coisa. Logo fico sabendo que o motivo da alegria foi a sua contratação para um estágio na área de jornalismo. Aproveito para perguntar como ela se descreve em um dia feliz. A resposta, desta vez, é bem diferente de seu primeiro depoimento: “Eu fico elétrica, tagarela, com um sorriso do tamanho do mundo e achando tudo lindo. Fico até mais educada!”
